domingo, 10 de agosto de 2008

Um típico fim de semana arquetípico.

Duas horas até o embarque. E eu aqui procurando o que fazer.
Buenas, penso eu, vou escrever um post pro blog.

Queria ter mais horas, mais minutos, mais tempo, mais mais...
Eu tô me apegando novamente a Pelotas. Fazia tempo que eu já não tinha sentimentos tão bons a respeito da minha cidade. Parecia que tudo que estava aqui era ruim, que a cidade estava toda estagnada num manancial de melancolia e mediocridade. Já pensei isso sobre Camaquã, no tempo em que o meu porto seguro era aqui e todo o lixo da condição humana se depositava por lá. Descobri com o passar do tempo, que a gente sempre está em busca dos arquétipos do vilarejo, do bairro, da tribo. Arquétipos que se manifestam em forma de coisas, lugares e pessoas... Eles servem apenas como referência, nunca, ou raramente, como o próprio objeto de desejo. Se a entidade arquetípica se defrontar com a concretude da realidade cotidiana como um ser palpável, tangível e até mesmo visitável, abraçável e beijável, então ela se torna algo com três ou até mesmo quatro dimensões, com defeitos e qualidades, com profundidade, largura, altura e tempo a ganhar ou perder. O arquétipo não representa apenas um ideal no bom sentido que essa palavra carrega, ele pode ser uma referência de algo ruim ou medíocre também. E também pode ser algo tíbio, morno, sem sal. Também pode ser algo misterioso. O arquétipo está lá, em um pedestal ou coisa que o valha, nunca te olhando, nunca te percebendo, apenas sendo percebido, notado, idolatrado, odiado. A relação entre arquétipo e sujeito nunca é bilateral. A gente vai embora. Ele fica lá, imóvel, esculpido na nossa memória.

* * *

Pois a vida continua, e depois que a flecha foi lançada, não se pode voltar atrás. O retorno para o vilarejo depois de uma partida definitiva sempre soa como derrota... Mas quem disse isso? (muitas pessoas talvez, mas no próximo post eu vou exemplificar com um poema do Gibran) Existem formas e formas de se retornar. Eu nunca pensei em voltar a morar em Pelotas novamente depois que eu botei o meu primeiro pé em Porto Alegre (e continuo não pensando), mas eu estou conseguindo me reconciliar com a cidade aos poucos... Voltei a torcer pelo Xavante (após um longo período de afastamento do assunto futebol em qualquer instância), tenho visitado meus pais com mais freqüência e cada vez mais encontro motivos pra estar aqui.

* * *

Meus arquétipos estão me perseguindo agora e eu estou perseguindo eles. Voltei a sonhar com coisas que eu já não via mais. Tirei as tapadeiras dos olhos e minha visão periférica da vida voltou a funcionar. Às vezes, quando a gente volta, os arquétipos já não estão mais como a gente os guardou. E nesse momento é que a surpresa acontece. Aquela foto envelhecida, amarelada e comida pelas traças já não representa mais o que costumava representar. O arquétipo cresceu, passou a ser tangível, palpável, abraçável e até mesmo beijável. O arquétipo mudou, desceu do pedestal e encarou a realidade.


Satolep, 10 de agosto de 2008

5 comentários:

Bia disse...

Escreve bem esse guri!!!
Amei!

Leandro Malósi Dóro disse...

pelo número de referências acadêmicas, creio que você deve ser consumidor ou contrabandista de pó pelotense.

Cara, isso é o bom de partir: voltar com muito mais vontade e coisas a oferecer. Mas creio ser melhor garantir a flecha lançada.

sica disse...

já leu satolep?

maumau disse...

Ainda não li, mas já tá na minha lista a curto prazo :)

sica disse...

vai cair como uma luva.
me dê notícias por mail
abraço

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